sexta-feira, 24 de março de 2017

Ensaio sobre História e Meio Ambiente por Prof. Gabriel Darezzo Paes

História e meio ambiente são dois mundos que devem sim serem interligados para que possamos entender o que ocorre nos dias atuais, os desafios que o mundo vem enfrentando e as grandes alterações socioambientais e para entendermos e ajudarmos a melhorar tais aspectos, precisamos começar a pensar em novos argumentos para velhos hábitos que os sujeitos de outrora e sua interação para com o meio ambiente.

A historiografia pode ser utilizada para trabalhar-se de forma multidisciplinar, pois mantém uma ligação quando o assunto é dialogar com outras áreas do conhecimento. O que falta é uma sensibilização para tal problema socioambiental e uma melhor divulgação do conhecimento que fora produzido dentro dos estudos, pesquisas e discussões na história ambiental, se assim pode-se chama-la.

Como nos afirma o professor Paulo Henrique Martinez, da Universidade Estadual Paulista de Assis (UNESP – Assis - Sp):

“[...] a história ambiental abre canais de comunicação e cria situações de diálogo interdisciplinar, como nos estudos sobre urbanização, agricultura familiar e políticas públicas [...]”

Pode-se observar que até o começo do que chamamos de século XIX, a sociedade, a humanidade, manteve uma alusiva harmonia para com o meio ambiente. Com a explosão da Era Industrial, o acontecimento das Duas Grandes Guerras no Mundo e o crescimento desenfreado da humanidade podemos observar uma ruptura nesse equilíbrio, que já era frágil, acarretando então na poluição de rios e mares devido a esgotos urbanos não-tratados, como, por exemplo, das industrias, cidades litorâneas e acidentes/naufrágios de navios petroleiros. E quando o assunto é Solo, podemos falar sobre as queimadas que dificultam o desenvolvimento do solo, prejudicando não somente as plantas, mas também os microorganismos que vivem e se alimentam da mesma, uma vez que após tais queimadas a qualidade do solo, causando então a diminuição do nível de áreas verdes aptas a se desenvolverem, por causa da inconsequência e ganancia do ser humano.

Martinez  é "Inegavelmente, após a Segunda Guerra Mundial, com a expansão vertiginosa da sociedade de consumo de massa, foi tomando corpo a percepção e a consciência crescente de um fenômeno complexo, interligado e de dimensões globais. Os problemas intrigavam historiadores, gestores públicos, cientistas, artistas e a população em geral".

Sabe-se que a partir do inicio do século XX, o que conhecemos como historiografia brasileira sobre a temática de meio ambiente, se redefiniu. A quebra de velhos paradigmas e de velhos hábitos, juntamente com uma estruturação de uma nova linha de pesquisa sobre o assunto, foi de extrema importância para o começo das discussões das novas formas de aplicabilidades no cotidiano.

Segundo a professora do curso de gestão ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, Silvia Helena Zanirato, afirma que "A temática ambiental é essencialmente interdisciplinar e somente a somatória de conhecimentos pode favorecer a superação da crise ambiental. O papel da história, nesse contexto, é buscar compreender e explicar os processos que contribuem para essa crise, a qual, sabemos, está baseada no sistema de produção e consumo da Modernidade"

Além de discutir-se sobre o assunto, precisamos de novas possibilidades (aplicáveis) para que novos estilos de vida, mais alinhados com a natureza, hábitos de consumo e uma forma de seguir em direção a um novo modelo de sociedade, seja criado, tendo o minimo de impacto ao meio ambiente, lembrando que o que precisa ser mudado inicialmente não é a parte física do meio ambiente, mas sim uma conscientização cultural.

Temos que nos países mais pobres os problemas ambientais começam pela “colonização” que certos países mais ricos fazem com esses mais frágeis. Com isso surge o desmatamento acelerado, os baixos investimentos do governo, a exploração abusiva, a degradação dos recursos hídricos e da destruição do solo devido a rápida extração de recursos nas áreas chamadas de rurais.
Quando fala-se de países mais ricos, além do que já citamos como uma forma de “culpa indireta”, pois são eles quem usufruem (na maior parte) das extrações e produções do locais, pode-se citar a poluição, devido as fábricas (industrialização inconsequente) que destroem os ecossistemas contaminando solo, ar e rios e com isso diretamente a fauna e flora das regiões das quais pertencem. Temos, por exemplo, a mudança climática, que não afeta somente o local que tais indústrias estão fisicamente, mas alteram o mundo inteiro.

Como nos afirma o Professor e Historiador Janes Jorge da Unifesp – SP:
"Acredito que as políticas públicas relativas aos recursos hídricos, resíduos, biodiversidade, mudanças climáticas e outros temas ambientais dialogam com o conhecimento científico. Mas ainda são políticas tímidas diante da dimensão do problema"
Após a segunda guerra mundial, houve uma maior preocupação e atenção sobre uma nova fonte de poluição, dada pela radiação. No início da década de 60 Rachel Carson em seu livro “A Primavera Silenciosa”, procurou alertar e conscientizar a população sobre os efeitos dos pesticidas no uso agrícola que até os dias atuais, após 50 anos de preocupação, avisos e estudos, ainda é bastante utilizado. O panorama hoje vem sendo transformado, devido os produtores de alimentos orgânicos, conhecidos popularmente como “famílias orgânicas”; O aumento na produção de alimentos mais saudáveis no mercado, se deu devido à campanhas e alertas sobre a importância do uso de materiais não prejudiciais à saúde, o que contribuiu para o crescimento da consciência coletiva.
No ano de 1972 a ONU (Organização das Nações Unidas) cria uma conferência referente ao “Ambiente Humano”, em Estocolmo (Suécia). Essa conferência teve seu ápice com a divulgação de um Decreto que contém 19 princípios, que, hoje, muitos historiadores chamam de: Manifesto Ambiental. Retiramos um trecho do próprio site da ONU:
Chegamos a um ponto na História em que devemos moldar nossas ações em todo o mundo, com maior atenção para as consequências ambientais. Através da ignorância ou da indiferença podemos causar danos maciços e irreversíveis ao meio ambiente, do qual nossa vida e bem-estar dependem. Por outro lado, através do maior conhecimento e de ações mais sábias, podemos conquistar uma vida melhor para nós e para a posteridade, com um meio ambiente em sintonia com as necessidades e esperanças humanas […] Defender e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações se tornou uma meta fundamental para a humanidade.”
Trechos da Declaração da Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente (Estocolmo, 1972), parágrafo 6.
No ano de 1983, na Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento o tema abordado foi “desenvolvimento sustentável”, que nada mais é do que a capacidade de crescimento econômico e a conservação dos recursos naturais e dos ambientes ao seu derredor para que gerações futuras possam usufruir, atendendo então as necessidades da humanidade no futuro.
Indo um pouco mais adiante na linha do tempo, temos no ano de 1992, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, a ECO-92, que teve como enfoque as mudanças climáticas e a necessidade da preservação das florestas que ainda existem no planeta. Ainda tivemos a Convenção sobre a Diversidade Biológica que visava a extração de elementos naturais, matérias-primas, como o ferro, por exemplo, mas com um equilíbrio entre preservação ambiental e a produção econômica.
Cinco anos depois, o mundo teve o chamado Protocolo de Kyoto, no Japão tratado que tinha como finalidade de alertar o aumento do efeito estufa e do aquecimento global, além disso, acrescentar aos países mais desenvolvidos, uma meta para a diminuição de gases de dióxido de carbono (CO2), sendo assim, um freio, digamos assim, pois em suma maioria eles mantem de forma desenfreada a sua industrialização. Um ponto que chama muita atenção é que os países que não cumprissem o acordo, não teriam nenhuma punição para os mesmos. Sendo assim, alguns países não assinaram o acordo, dentre eles temos os Estados Unidos que eram responsáveis, na época, por 24% de todo o CO2 produzido no mundo.
Quando o assunto é proteção ou preservação do meio ambiente, podemos notar que desde o inicio do século XXI, deixa-se de ser um assunto de um pequeno grupo pessoas, de “românticos”, para um assunto de abrangência global, onde o assunto abordado são as energias utilizadas pelo ser humano.
Os acordos formados durante o último século (XX), “batem na tecla” que as fontes de energia que vem sendo utilizadas por nós, homo sapiens, deve ser revista e alterada para uma fonte de energia de forma renovável, pois quando trata-se de de impacto no meio ambiente temos que lembrar que todos os animais de todas as especies vão utilizar deste “território” para sobreviver.
O ser humano deve ter consciência de que tudo nos é dado, tudo o que necessita está disponível, ao alcance de nossas mãos e isso a “mãe natureza” nos ensina. Entretanto, “falta sapiência para esse Homo” para que o mesmo possa encontrar um equilíbrio e prover suas necessidades, lembrando sempre que deve-se procurar formas equilibradas sem que a fonte se esgote, para todos os animais, incluindo o ser humano e esse mesmo humano, deve lembrar que não é somente ele que habita essa nave que chamamos de Terra, e que devemos preservar essas fontes, retirando apenas o que nos é necessário, não mais do que isso, talvez assim, possa começar a observar que tudo o que temos é uma dádiva. Porém, para que isso ocorra, devemos mudar, totalmente, a forma com que enxergamos os elementos da natureza e esse é o nosso maior desafio dentro deste século.  A Educação Ambiental, que poderia ser inclusa no Ensino Fundamental I e II e no Ensino Médio, poderia intensificar o contato das crianças com a natureza, talvez permitindo que estas tenham mais cuidado e amor para com o mesmo, fazendo com que se garanta uma qualidade de vida para todos no futuro, tirando o pensamento individual e começando a pensar de forma coletiva.
De forma científica a humanidade vem concluindo que as fontes de energias que ainda utilizamos estão se tornando (se já não estão) ultrapassadas ou que já não atendem a real necessidade da população e que vem levando o planeta a um esgotamento dos recursos disponíveis.
Grupos criticam outros grupos apontando-os como responsáveis pelo desgaste atual. Isto é perigoso, pois a discussão não está no foco necessário, mas sim em uma briga de ego. Não se trata de encontrarmos culpados e responsabilizarmos os mesmos por tudo que tem ocorrido, não é esse o objetivo. Temos que nos unir em prol de um objetivo comum e começarmos a modificar a cultura para que possamos então vencer um dos maiores embates que são travado dentro deste assunto: Saber viver e conviver, da melhor forma, ou seja, de forma equilibrada, com o meio ambiente que nos é ofertador que não temos dado o devido valor.

Gabriel Darezzo Paes - Professor de História e Palestrante
https://www.linkedin.com/in/darezzo/